A insustentável leveza dos sistemas indie
Mais um daqueles textos sobre a comunidade de RPG de maneira geral. Dessa vez é sobre a insustentável leveza de sistemas novos e independentes. Não me leve a mal, acho que o melhor que sai e se sustenta no RPG de mesa nas últimas décadas é exatamente o que os independentes fazem. Empresa grande só dá desgosto. Independentes que almejam ser grandes sem se sustentar em qualidade do produto que faz e não em personalidades, também. Os de falsa humildade, especialmente, ainda são os piores.
Isso se torna um problema, no entanto, quando os sistemas que saem todo santo dia são efêmeros. Eu já falei muito disso antes e certamente estarei me repetindo aqui, então não vou ficar entrando em detalhes novamente sobre sistemas coloridos, mas vazios, como aquele cereal açucarado da manhã. O meu ponto dessa vez é ver como isso é ilustrado nas interações das comunidades de RPG online.
Então vamos lá. A cena indie de RPG de mesa nunca prosperou tanto (baseado em vozes da minha cabeça e no que vejo em redes sociais, não em dados confiáveis, longe disso), especialmente do lado de cá da WOTC e seus fracassos colossais no que concerne à marca D&D. Seja por escolhas medíocres para a apresentação e regras do velho/novo sistema, seja pelas catastróficas relações públicas que só uma megacorporação sem nenhuma pista sobre como a comunidade funciona decide fazer.
Hoje sai tanto sistema novo quanto tem areia no deserto. Se você vai no itch.io ou até no dtrpg.com, vê lá um tanto de coisa que te faz questionar sua própria sanidade. Tem coisa demais, para todos os gostos, mas não em todas as qualidades. É muita, mas muita, tranqueira. Especialmente se você vai no lado itch.io da cena. Especialmente no lado OSR da coisa. É uma completa aberração o que acontece. Você acha diversas coisas, desde sistemas de uma página que se dizem contra o fascismo (porque, pelo visto, hoje você precisa dizer isso como logomarca em todo o seu trabalho, porque senão corre o risco de ser acusado de estar apoiando o pior genocida do momento) até sistemas supercoloridos, “baseados” em D&D (mas que, pasme, não funcionam nem como D&D nem como coisa nenhuma). Essa galera do último caso inventa cada moda que eu me pergunto como diabos essa ideia apareceu. Certamente não foi jogando o jogo, mas enfim, deixa a galerinha descolada curtir sua criatividade, mesmo que engane os turistas do hobby, tire um troco e suma da existência em poucos meses.
A exceção que vejo nesses últimos casos de sistemas “tipo” D&D, que se mantêm de alguma forma na boca do povo, não pela qualidade do que “acrescentam” aos subsistemas de D&D como um todo, são os que se sustentam pela fama do autor. Seja porque ele criou algo útil antes (raridade, porque gente com talento costuma ser consistente), ou porque tem alguma fama como militante online, ou é algum influencer de rede social que decide lançar o seu sistema para seu cercadinho. Esses últimos vão durar o tanto que a comunidade do sujeito estiver empolgada e ele continuar ligando a sua fama ao seu produto. Nada contra ganhar dinheiro (ou alimentar o ego) legalmente, divirta-se.
O problema disso é que eu também quero me divertir. E eu gosto de me divertir jogando RPG de mesa. Infelizmente o que tem saído não se sustenta nesse propósito. Não falo isso só da cena BR, que não canso de comentar a respeito (e fazer muita gente emocionada jurar que quem está “cholando” sou eu). Sim, meus textos são muitas vezes críticos e doem nos calos de uma galera (mesmo eu não citando nomes. O lance da carapuça para quem ela serve nunca foi tão real). Mas especialmente na cena gringa, que, querendo ou não, influencia demais o que sai por aqui.
Os sistemas que saem não são duráveis. Muitas vezes são só temáticos, com aquela típica arte gritante e colorida que deixa a juventude em polvorosa. Mas, para o longo prazo (e longo prazo de maneira geral, não somente campanhas longas, mas milhares de oneshots que seja), não têm fôlego algum.
Vejo isso sempre nas comunidades. As comunidades do Discord, por exemplo, tem uma gama enorme de jovens descolados, seja de corpo ou de alma, que estão sempre atrás da última moda enquanto cagam na cabeça dos antigos e imperdoáveis designers clássicos de RPG. São pessoas que adoram novidades acima de tudo, que dizem que tudo que tem mais de 1 ano de idade é obsoleto e que já não vale mais nada por inúmeros motivos (muitas vezes ligados à índole do autor, seja lá por qual motivo).
Isso diz muita coisa. Parece que há uma parcela do público de RPG de mesa que não se importa com a consistência e longevidade de um sistema; eles querem mesmo é consumir o novo, mesmo que esse novo seja efêmero. Mas, desde que eles tenham assunto, desde que consigam comparar a última novidade com o que saiu ontem e que o autor que lançou tenha uma ficha limpa nos olhos cheios de pudor de quem consome, está tudo perfeito.
Venho observando isso a pelo menos 2 anos frequentando certas comunidades, vi nesse segundo ano a galera falando super bem de pelo menos 5 sistemas diferentes que acabaram de sair, enquanto falam mal dos 5 que saíram no ano anterior, que eram super novidade, mas hoje já não servem mais. Seja pela postura inaceitável do autor existir fora de suas bolhas, seja porque resolveram que Japão feudal já não serve, que agora o sistema precisa ser full anime para ser legal.
Percebe? Não se trata de regras, de longevidade, de dinheiro bem investido para campanhas de jogatina. Trata-se de temática e de novidade. De bombas de dopamina constantes. Mas nunca assumem que se trata disso. O argumento é sempre o de que é para apoiar o autor, que é superlegal (na cabeça deles, porque na prática não sabem nem quem é, só conhecem a bandeira ideológica que a pessoa usa para atrair o público), que dessa vez o sistema vai trazer o que sempre faltou na vida, que precisava de um livro com capa rosa-choque para combinar com as outras cores na estante.
Em paralelo, há servidores somente focados em D&D old school. Vejo produções também constantes. Projetos pequenos, médios e grandes de conteúdo jogável para AD&D, OD&D e seus retroclones. Em vez do foco ser sempre o de reinventar a roda, passa a ser o de agregar conteúdo. E conteúdo palpável, do que você sente enquanto joga, que é algo que vai realmente ser usado por anos, não somente naquela temporada de lançamentos.
Eu sei, chega a ser cruel comparar uma comunidade que não dá conta de decidir do que se trata de verdade com uma que está há décadas com os pés no chão, melhorando o seu jogo e seu hobby. E é mesmo. Esse é o ponto. Não o de humilhar, mas o de trazer para a roda os valores reais que cada comunidade tem, pois esses valores é que definirão o que será produzido e o que será consumido. É realmente mais vantajoso ficar desperdiçando papel com novidades constantes que nunca agregam em nada e daqui a um ano estão sendo esquecidas e mal faladas? Ou focar o esforço e a atenção em algo que talvez demore mais, mas que seja mais profundo, mais útil e mais divertido a longo prazo?
Eu sei, é gostoso comprar um novo lançamento e falar sobre ele por semanas para os amiguinhos. Mas não é melhor focar nas histórias da mesa que de fato acontecem jogando o jogo por semanas, meses, anos, em vez de ficar nessa onda de comer pastel de vento só pelo ar quente? As melhores histórias são as compartilhadas. As da sua cabeça são legais até que viram mediocridade no mundo real. Daí o jeito é voltar para algum site de financiamento, torcer para a nova onda te dar alguma emoção e ter sobre o que falar, e não jogar até o próximo ano.
E, o mais importante, isso que falei vale para todo e qualquer lançamento indie da última década? Como disse no início do texto, não. Há exceções. Não tem como esperar que todo ano saia algo revolucionário como D&D. São poucos os casos que realmente são originais, criativos, úteis e divertidos, tudo ao mesmo tempo. Mas eles existem. Só que não é mesmo para sair isso toda hora. Esse tipo de coisa costuma levar tempo para ser produzido, porque coisa boa não surge do nada. E raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Não corriqueiramente, pelo menos. Invista essa emoção toda em algo durável, tipo jogando RPG em vez de só falando mal/bem de algum sistema que saiu ontem.
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