OSE Advanced realmente é a versão definitiva do OSE (B/X)?

Não considere as informações contidas nesse texto como orientações para não financiar o produto  no Brasil. Muito pelo contrário. Financie se tiver interesse no material. 


Mesmo tendo suporte apenas à  linha Advanced, com todos os seus defeitos,  ainda considero como a melhor versão de B/X que teremos oficialmente no Brasil.
 


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TL;DR:
O OSE Classic continua sendo melhor que o Advanced OSE (e agora o OSE 2026) porque ele entrega exatamente aquilo que prometia: B/X puro, organizado, fiel e consultável em mesa. Achei um desserviço do autor abandonar a versão Classic (B/X quase 100% fiel) mas assim é a vida. As escolhas dele (na minha opinião) foram infelizes. Copia o AD&D bem mal (sendo só um B/X com classes, monstros e mecânicas “inspiradas” em AD&D1e, sem realmente entregar a experiência do AD&D, enquanto ao mesmo tempo abandona a simplicidade que fazia o Classic ser especial.). Mas enfim, pelo que ele prometeu (já fez promessas antes que não cumpriu) ainda vai ser possível com o(s) novo(s) livro(s) ignorar as mudanças e ainda jogar o clássico. Ok, não duvido que seja possível, mas certamente vai ser mais trabalhoso do que só pegar o Classic e jogar. Dois livros em vez de apenas um também não favorece.

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Foi anunciado (como esperado) uma nova versão de OSE para lançamento em PTBR. Assim como a nova versão que ainda sairá na gringa, vai ser uma versão do
Advanced OSE, só que mais atualizada (leia-se, fora da OGL por medo do ardil da WOTC). E vou dizer abaixo porque eu achei isso uma má ideia mas ainda acho um lançamento relevante mas terras tupiniquins. 

Antes de mais nada, é importante lembrar o que fez o OSE se destacar. O Old-School Essentials Classic Fantasy Rules Tome não nasceu para reinventar o B/X, expandir o B/X ou “melhorar” o B/X. Ele nasceu para ser essencialmente uma reorganização quase 1:1 do Dungeons & Dragons Basic/Expert, com um layout moderno e extremamente funcional. O objetivo era claro: pegar o jogo básico de D&D (leia-se, com o mínimo essencial) , mas muitas vezes confuso na apresentação, e transformá-lo numa ferramenta para uso em mesa. E nisso ele foi excepcional.

O Classic tinha algo que o posterior Advanced nunca conseguiu manter, foco. Ele era um livro só, compacto, fácil de consultar e usando praticamente a mesma terminologia do B/X original. Isso importa muito mais do que parece. Quando você pega o B/X e pega o Classic, você sente continuidade. Os termos são os mesmos, a estrutura mental é a mesma, a intercambialidade é praticamente a mesma, só que organizada de maneira superior. Era um livro feito para ser usado em jogo, não para ser expandido em linha editorial.

A própria Necrotic Gnome sempre apresentou o OSE como um clone altamente fiel do B/X. Só que, pelo que anunciaram  recentemente, a prioridade mudou. Agora o foco não é mais preservar essa experiência razoável e minimalista . O foco é consolidar a linha, torná-la mais acessível comercialmente, preparar o terreno para suplementos futuros e unificar o catálogo. Em outras palavras: o foco deixou de ser “como apresentar o B/X da melhor forma possível” e passou a ser “como estruturar uma linha comercial sustentável”.

E é justamente aí que mora o problema do Advanced.

Desde 2022, o Old-School Essentials Advanced Fantasy nunca foi realmente o que se propunha de fato, ser um OSE avançado. Eles definem o jogo como “B/X com classes, magias, monstros e opções inspiradas em AD&D 1st Edition”. Esse “inspiradas” é o ponto central. Se você vai para o AOSE esperando o clássic com opções originais avançadas de jogo, não é bem o que você recebe. E também não é AD&D1e. É algo que não é nem o meio do caminho, mas paralelo. É um B/X com regras da casa de alguém que leu o AD&D1e e decidiu aplicar (com modificações e simplificações pesadas) o seu conteúdo no B/X. 

Quem vai para o AOSE esperando jogar AD&D lite, vai se frustrar. Não tem weapon speed. Não tem casting times, iniciativa segmentada.  Não tem a lógica procedural mais elaborada do AD&D, nem ao menos a do proto AD&D (leia-se 0e com suplementos). Inclusive, quando perguntados sobre weapon speeds e casting times, a editora responde que essas regras estão acima do nível de complexidade desejado para o core. Ou seja, eles querem o visual e as opções do AD&D, mas não querem nada que o sistema do AD&D trouxe para enriquecer e facilitar a jogatina. Talvez em futuros suplementos (Ou seja, ainda mais livros) você tenha o Advanced que procura. 

E também não tem uma lógica fluida entre a proposta do B/X para algo que avance na proposta de jogo do basic de forma natural.

O que o AOSE faz é pegar as classes como assassin, knight, barbarian, ranger, separar raça de classe, adicionar  alguns monstros, adaptá-los para o chassi do B/X (e mesmo assim vários dos monstros do AD&D de fora, como diabos e demônios, e outros monstros clássicos), adicionar algumas regras opcionais (como tipos menos letais de veneno), mas tudo isso continua sendo enxertado em cima do chassi do B/X. O resultado não é nada "Avançado". Também não é mais B/X puro. Fica num híbrido que perde parte da elegância do Basic sem ganhar a profundidade do Advanced. É basicamente pintar um fusca de ferrari, colocar aerofólio e rebaixar.

Na versão 2026 eles estão adicionando ainda mais opções: hit dice do Advanced (O que imagino que vai afetar o poder de jogo), idade por raça, regras de cegueira (no B/X quem está cego não pode atacar, mais uma vez afetando o poder de jogo, multiplos ataques para o o fighter (para criaturas de menos de 1hd, mas muita gente vai chiar), training rules (mas certamente não com o peso que tem em AD&D), XP por itens mágicos (o que afeta fortemente a velocidade de progressão), hovering at death’s door (você já não morre mais com 0 de hp. Ou seja, mais uma coisa que vai se afastar em muito do diferencial letal do B/X) e por aí vai. Tudo opcional, claro, mas essa é justamente a armadilha do Advanced: ele vai se tornando um acúmulo de house rules organizadas oficialmente. Você continua podendo jogar “Basic puro”, mas agora precisa filtrar constantemente o que é B/X e o que é enxerto. Agora haverá seções chamadas “Basic Play” para ajudar o árbitro a identificar o que veio diretamente do B/X. Mas em 2 livros e com mais dificuldade de acessar a informação prontamente. 

Daí vem o  problema físico e prático. O Classic era um livro só. A versão original do Advanced de 2022 e agora ainda mais inflado de  2026 “simplifica” a linha transformando tudo em dois livros, Player’s Book e Referee’s Book. Isso é vendido como simplificação, mas na prática continua sendo mais fragmentado do que o Classic Fantasy Rules Tome jamais foi. O jogo que antes você abria num único volume agora exige consulta cruzada novamente.

Já se você tem acesso à lingua inglesa e quer algo que realmente faça a ponte entre OD&D e AD&D, o Swords & Wizardry Complete Revised  faz isso melhor. Ele nasce da linhagem OD&D + supplements, que historicamente é exatamente o caminho que leva ao AD&D1e. Ele não precisa pegar B/X e começar a colar classes em cima dele para parecer “advanced”. Ele já cresce naturalmente dessa tradição. Como proto-AD&D, ele é estruturalmente muito mais eficaz nesse sentido.

Já se a sua a ideia é pegar o B/X e expandir com mais conteúdo, também existem alternativas mais autorais e mais interessantes que o AOSE. Jogos como Advanced Labyrinth Lord, Labyrinth Lord 2 (Do autor do primeiro retroclone de B/X de mesmo nome) e Dragonslayer (do autor de Barrowmaze e derivados) assumem que estão reinterpretando ou expandindo o Basic. Eles não fingem ser “o B/X puro” para depois deslocar o produto principal para outra direção. E melhor: em todos os casos entregam tudo em um único volume, preservando exatamente a praticidade que fez o Classic ser tão bom.

No fim, só confirma algo que já estava claro desde 2022: o Old-School Essentials Classic Fantasy Rules Tome era o ápice do projeto, e o Advanced representa uma mudança de prioridade. A Necrotic Gnome diz que  Classic continuará em PDF ou print-on-demand, enquanto o Advanced vira a linha principal porque vende mais e porque a maioria dos grupos quer “mais opções”. Então, ok. Viva o mercado de colecionadores. 

Mas para quem realmente quer jogar B/X como B/X, com a terminologia original, com consulta imediata, com um único livro e sem precisar navegar por camadas de opções, o Classic continua sendo não só melhor,  continua sendo o verdadeiro motivo pelo qual o OSE se tornou relevante em primeiro lugar. 

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