O que é preciso saber para iniciar em AD&D1e?(A resposta vai te chocar. Ou não. Quem sabe.)


TL;DR Se você for jogador, não precisa de nada, só meter a cara no jogo e se comprometer nas sessões. Se for mestre, apenas foque no que diferencia 1e do resto, como sinergia entre raça e classe, como ambas funcionam e tabelas de combate. O resto se aprende aos poucos com o tempo. Ou então aprenda com OSRIC3.0 . É rápido, fácil e gratuito. 



Como sempre, estarei me repetindo (ou me contradizendo). Mas releva que sou velho e tenho pouca criatividade. 

Depois de conseguir sair da lama da mentalidade moderna e descolada dos OSR pós 2012 altamente populares quando comecei com OSR, eu caí de paraquedas nos fórums e grupos de D&D oldschool de fato. Meio perdido e ainda carregado de preconceitos que me foram bombardeados à época (jogo velho, preconceituoso, falho, complicado e etc), eu custei a entender de fato a realidade da coisa. Foi com o lançamento de Castle Xyntillan em 2020 que tive o estalo mental sobre o que de fato é tão especial em D&D e como os livros clássicos possuem muito mais do que nostalgia e importância histórica. Eles possuem todo o conteúdo necessário para se jogar D&D em sua plenitude, especialmente a 1e. O resto é resto. Só complementam ou ajudam a entender a beleza do jogo que já atingiu seu magnífico ápice lá na década de 80 e que depois foi só ladeira abaixo. 

Por que essa intro gigantesca para algo nada a ver com o tema do texto, você pergunta? Muito pelo contrário, tem tudo a ver. 

Como falei, lá em 2020 eu comecei a entender a beleza real do oldschool e parei de me submeter às inverdades e insanidades do OSR moderno. Então decidi meter as caras nos livros de regras antigos e entender em primeira mão o que de fato esses livros tinham de tão especial. A essa altura eu já tinha lido alguns módulos clássicos, percebi que eram muito mais densos, tanto no que concerne o texto, a qualidade e ao conteúdo, mas também era um material muito mais cansativo e que demora mais para ser absorvido (mal do leitor do século XXI). 

Em 2022 eu consegui um grupo supimpa e decidimos implantar aos poucos as mecânicas e regras da 1e em nosso jogo. Cerca de 1 ano depois vimos que não estava dando muito certo, então simplesmente mudamos o sistema por completo para a 1e e não olhamos mais para trás. Inclusive, direto penso no porque não fizemos isso antes? Preguiça, preconceito, medo de dar errado, ou de que não teria demanda. Foi tudo isso um pouco. 

Mas ao jogar o jogo, percebemos que a 1e não é tão complicada assim, inclusive pode ser bem simples. O difícil é acostumar com a leitura Gygaxiana e, especialmente, à desorganização dos livros originais. 

Claro, há toda uma explicação histórica do porque os livros foram feitos assim. Foram lançados fora de ordem, Não existia modelo no hobby a ser seguido, Gygax ainda estava criando e testando as mecânicas enquanto escrevia, tiveram vários e vários colaboradores no processo e ele estava produzindo uma linha de produtos em que achava que teria controle a longo prazo. 

Só que nada disso importa na prática, pois os livros são o que são e o leitor/jogador/mestre só quer saber (ou pelo menos deveria querer saber) sobre as regras e como aplicá-las. E pasme, os livros tem tudo. Só que em uma lógica nada simples e algumas vezes até contra intuitiva. Mas se você consegue ultrapassar essa barreira inicial, você está diante de um mundo de maravilhas. 

"Ah, mas eu jogo RPG a 30 anos e nada mais me surpreende. Inclusive joguei 2e da abril jovem". Sim, mas ninguém liga. Você é noob na 1e, assim como eu e a imensa maioria dos brasileiros. Porque 2e não é 1e. Aceita que dói menos. 

Eu também jogo RPG a 26 anos e não tenho vergonha de dizer que só entendi realmente o que é D&D quando comecei a jogar os retroclones/jogos originais. Infelizmente é fato. Pelo menos foi minha trajetória. 

Enfim, agora a resposta, por que eu disse tudo isso? Porque é pelo fato de ter perdido tanto tempo com preconceitos e receio, eu demorei muito mais tempo do que precisava para começar a jogar o jogo de fato. E esse jogo de fato nada tem a ver com nostalgia e não é nem um pouco complicado de se começar a jogar. Especialmente nesse ano lindo em que saiu OSRIC 3 para a galera aproveitar. 

Então vamos lá: O que eu preciso saber para jogar AD&D1e hoje, em 2026? Depende.

Calma, esse post não é trolagem. Persista comigo. 

Depende de 2 fatores. Você é mestre ou jogador? 

Mas veja bem, esse texto é para o mestre e o jogador. Se você é historiador amador, se quer saber termos dos livros para vomitar bobagens online ou para dar aula para jacu, esse post não é para você. Mas a essa altura, acredito que já afastei todos esses tipos do blog, então provavelmente quem ficou é quem tá interessado realmente em jogar o jogo. 

Logo, voltemos ao ponto. 

Se você é jogador, você não precisa de saber absolutamente nada do jogo. Parece maluquice, mas não é. Eu tenho jogador na minha mesa que sim, sabe os conceitos básicos sobre D&D, mas até hoje não entende a lógica de iniciativa em seguimentos, por exemplo.

E isso não atrapalha o cara de jogar. Mas claro, ele tem que aceitar sem reclamar algo que acontece em jogo e não entende e perguntar depois do jogo as mecânicas por trás do jogo para que aquilo fosse possível, mas enfim. O jogo roda super bem sem o cara saber de quase nada. Sim, com o tempo ele vai aprendendo, vai saber montar a ficha, ler o encumbrance, saber consultar a matriz de ataque, o alcance da arma, a area que ela precisa para funcionar, a diferença entre ataque a criaturas pequenas, médias e grandes e etc.

Depois disso, na prática, ele vai perceber como funciona weapon speed factor e Weapon Vs AC, porque ele vai ver isso acontecendo em jogo. Assim como o essencial sobre combate desarmado, de como ele existe para apimentar os combates, não para complicá-los e assim sucessivamente. O cara vai aprender, mas jogando.

E claro, nada impede o jogador de ler e aprender. Isso só não é necessário para começar a jogar. Então, leia para ajudar seu mestre. Especialmente se você for Magic User e for castar uma magia. 

Agora, se você for mestre, a coisa muda de figura. Mas nem tanto. 

Exaltando mais uma vez o meu narcisismo e meu prazer ao falar de mim, digo: Comecei com pouco, durante os anos fui aprimorando e hoje ainda falta muita coisa para me tornar um grande mestre de 1e. Provavelmente nunca serei. Mas isso não me impede de jogar, de me divertir e de aprender mais. E não deveria impedir você também. 

Vejo tanta asneira online que só os melhores jogam 1e, que gente burra não consegue jogar, que você precisa fazer um curso extenso sobre chainmail e 0e para sequer entender o que é 1e. Não seja tolo, não caia nessas conversas infelizes. D&D é um joguinho, não é neurocirurgia, não é astronomia e nem é tecnologia usada em foguetes espaciais. É um jogo de faz de conta em que existem mecânicas nada realistas para fingir que tudo aquilo faz sentido. E tudo é rolado com dados. Então, não delire. Leia, entenda e jogue. 

Leia o que e aonde, você pergunta? 

Leia o essencial, leia como se cria personagem, como os atributos afetam as mecânicas (em adnd1e, diferente da 0e, por exemplo, os atributos tem papel muito mais importante. Por isso as rolagens de atributos são feitas de forma muito mais amena do que nos outros clássicos.), As limitações de raça e classe, os pre requisitos para as classes baseado nas raças e nas rolagens de atributos. As matrizes de combate, os saving throws e entenda a ficha dos monstros(número que aparece, hd, magic resistance, habilidades especiais). 

E só. 

"Você está louco" você vai dizer. "Tem uma pegadinha aí". 

Sim e não. Eu pessoalmente comecei com bem mais do que isso. Para mim precisava pelo menos entender como é o combate e suas variáveis, como as armas funcionam, magia, como se resolve empate na iniciativa com speedfactor e etc. Mas depois de ler as palavras de sabedorias do grande Trent Smith (entusiasta de décadas do jogo e grande autor de 1e), que disse que basta você seguir os números do xp e as mecânicas de raça e classe para estar jogando 1e, a coisa fez muito sentido para mim.

 E realmente.

O que mais diferencia AD&D de outras edições clássicas é isso, esses números. Se você usa regras da casa para combate, exploração, encumbrance, magia e etc, você continua jogando 1e. Provavelmente uma versão ruim e capada, mas continua sendo 1e. E veja bem, "mal e capada" é algo subjetivo. Se serve para seu grupo que você só use isso de 1e e o resto de OSE, bom para vocês. Eu não jogaria nessa mesa, mas isso não quer dizer que é objetivamente ruim para todos. E espera-se que com o tempo você vá pegar mais coisa da 1e, até estar realmente satisfeito a longo prazo. Muita gente inclusive jogava assim antigamente. 

É o ideal? Para mim nem de longe, tanto que  fiz o que fiz. Eu fiz questão de seguir as mecânicas de exploração, em casos tive que escolher qual funciona melhor para meu jogo (algumas do livro do jogador são contraditórias ao livro do mestre, por exemplo.) E, como já disse antes, o grande diferencial para mim foi a iniciativa em segmentos. Abriu meus olhos sobre o poder tático do jogo e responde muitos beco sem saída do que eu jogava antes. E mesmo assim a iniciativa em segmentos é só uma das interpretações dadas para a iniciativa na 1e. Mas isso eu nem mexo porque já achei a versão que me interessa e faz sentido. 

E "isso" é muito importante. Ignorar o que não faz sentido para a sua mesa (e o que pessoas que não jogam nela dizem sobre ela). 1e tem material core a dar com pedra. O próprio Gygax diz nos livros que não espera que você use tudo. Você precisa só que vai precisar em sua campanha. Não vejo como isso pode ser interpretado de forma diferente do que acabei de dizer. Você precisa do básico, o resto você pega com o tempo quando precisar. 

"ah, mas o layout..." Sim, o layout. Se você é jovem pós twitter e precisa de textos curtos (e provavelmente nem está lendo esse, pelo visto, kek) Você está com sorte. 

OSRIC3.0 é a versão que você procura. Nele você tem o 1e bem diagramado, escrito direto ao ponto com exemplos de jogo. Você temd escrições curtas de magia, sem confusão. Você tem de forma clara ordenada e direta como as raças e classes funcionam. Você tem o combate destrinchado para você. É, sem dúvida, a melhor forma de aprender AD&D1e hoje se você não tem nenhum conhecimento do jogo e se não tem interesse histórico e hiper detalhista de como é a coisa original. 

Eu reforço isso por alguns motivos. OSRIC é uma maravilha. Mas não é perfeito. Não para quem já joga 1e e não para os historiadores de plantão e muito menos para quem quer ser elitista online. 

Há diferenças na interpretação (mais aceitas pela comunidade) de algumas habilidades e magias das classes, progressão de nível varia um pouco se comparado com 1e,  uma coisa ou outra do combate foi simplificado e as mecânicas de combate desarmado estão diferentes (grandes coisas, a 1e tem pelo menos 3 diferentes também.) Além de xp por item mágico ter uma fórmula padrão em vez de ser feita por item. Dentre outras coisas. Logo, se você é purista que nunca jogou o jogo, provavelmente não vai gostar de OSRIC3. 

Mas se você é mestre iniciante (e possui jogadores iniciantes), eu recomendo fortemente que comece pelo OSRIC3. Se ele existisse na época que comecei, eu teria usado ele. Sim, o 2.0 existia, mas era longe do ideal. Tinha bem menos mecânicas do que o 3.0. E mesmo assim ainda usei em alguns casos para esclarecer algumas questões que surgiam na 1e. 

OSRIC 3.0 é a versão definitiva de 1e? Não. Mas é a versão mais didática. E é o mais perto que se chegou da coisa em si, mas ainda tendo algumas diferenças (poucas) autorais e por questões legais. Além de ainda não ter absorvido TODA a 1e. (Ainda não tem Psionics, e nem Weapon Vs AC, por exemplo.)

Só que se você joga presencial com grupo que tá acostumado com OSE nutella, ou pior, suas cópias fajutas ainda mais capadas, o OSRIC3.0 é ainda mais importante. Falo isso por experiência própria. A cara que os jogadores presenciais fazem ao abrir o livro do jogador da 1e comparado com a cara que fazem ao abrir o 3.0 do OSRIC é um argumento inquestionável por si só, vai por mim. 

Então é isso. Você não precisa de quase nada para começar a jogar 1e. Só o super básico. Mas para melhorar seu jogo você precisa de experiência, e isso só se adquire jogando. Outra recomendação que faço é tentar começar com um módulo simples e pronto. De uma dungeon que seja, lido previamente, para fixar as mecânicas básicas do jogo e já partir para aprender outras. Se você começar com sandbox autoral e muito teatrinho em taverna, perderá muito tempo que poderia ser gasto aprendendo o jogo com bobagens. 

Boa sorte com a melhor versão que existe de D&D. Nos vemos pelas mesas. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Curadoria do Rato para leituras do Dustdigger (será atualizado com o tempo)

13 perguntas que você já fez sobre procedimentos e regras Oldschool e o AD&D1e já respondeu a mais de 40 anos.

D&D Old School Não é Simulador de Vida. (Ou qualquer que seja.)