Tabelas para que te quero!
| Cara de ressaca depois do arrasta pé e risca faca de sabadão. |
Rantzinho de domingo só para não perder o costume:
Uma coisa extremamente comum em D&D Oldschool, OSR e toda a tragédia que veio depois são as tais tabelas. Todo mundo ama tabelas. Quanto mais tabela, melhor. Tabela, tabela, tabela. Mas não é bem assim.
Quando você pega algum dos clássicos da era da TSR ou até os novos clássicos que vieram com os retroclones, você nota ao ler que as tabelas lá inclusas tem um propósito bem claro, que é gerar conteúdo jogável. O DMG da 1e é o melhor e mais claro exemplo disso. Lá tem inúmeras tabelas, todas com o intuito de auxiliar o mestre a gerar conteúdo para sua campanha. Seja no mais objetivo e básico possível, como gerar tesouros (que tem estatísticas no livro) como encontros com monstros (também com estatíscas no livro). Tem tabelas também para idade e peso dos personagens (idade afeta atributos e peso afeta quem cosnegue carregar quem em algum momento de necessidade, ou se aquela soma de peso ativa alguma armadilha e etc.). Tem também tabelas para gerar masmorras (inclusive nunca vi melhor gerador) ou ermos (idem). E por fim tem tabelas mais periféricas que não são imediatamente úteis, mas que no dia a dia de jogo ajudam demais (como a tabela de doenças, de insanidade, até de meretrizes, a serem usadas não necessariamente nessa ordem). E esses são só alguns poucos exemplos do tipo de tabela que se encontra nesse tomo maravilhoso.
Eu sei, não é justo eu pegar o melhor exemplo para ilustrar e seguir com o que eu quero falar, mas é a forma mais clara de entender que eu achei. Há outros bons exemplos, como as tabelas que tem em ACKSII ou até as tabelas de gerador de monstros em LotFP (a magia invocação é um excelente exemplo de bom uso de tabelas para prática de jogo). Então, existe sim uma proposta bastante útil para tabelas em D&D Oldschool, retroclones e OSR em geral. Como os citados acima.
Mas, chegando ao ponto central do texto, há inúmeros exemplos de maneira errada em adicionar tabelas no seu sisteminha picareta. Já vi vários e vários exemplos (não preciso nem citar porque garanto que algum deles vai estar na sua estante se você é um consumidor típico de OSR moderno) em que tabelas são incluidas pelos mais variados motivos escusos.
Existe mais de uma forma de fazer algo errado, existem mil vezes mil ad infinitum. Então vou citar apenas alguns mais óbvios:
Tem "sistemas" que, se destrinchados, tem no máximo 20 páginas de tudo que precisa para jogar, mas o resto das 300 páginas são encheção de linguiça: Arte, palavras de efeito gigantes, lição de moral sobre como você deva agir em sociedade e dentro do seu jogo, e tabelas. Tabelas de todos os tipos e tamanhos, mas que nada servem para o jogo, apenas para inflar páginas e fazer seu trabalho mais relevante do que é ou para pintar sua imaginação com coisas irrelevantes para aquele momento, como: que cor é o monstrinho, que tipo de item não jogável ele carrega naquele momento, que cor é o cabelo do seu boneco, os olhos, se ele tem pinta no rosto ou no bumbum, se ele é uma pessoa que tem muitos amigos ou nenhum (pense aqui nas clássicas tabelinhas sem vergonha da 5e da WOTC). Se a família dele é pobre ou rica (sem te dar nenhuma vantagem/desvantagem mecânica) e assim por diante. Que cor é seu castelinho, se o telhado é de laje ou telhas e etc. Ou seja, apenas descrições estéticas sem um peso mecânico que não é relevante ter no livro base do jogo.
Há também as situações em que o "autor" acrescenta tabelas copiando do material que está "se inspirando", mas sem entender o propósito de tais tabelas. Daí fica aquela meia coisa lá tomando espaço de página, mas sem contexto, sem explicação e sem motivação para uso. Isso fica muito claro com os supostos "retroclones pero no mucho", onde os autores falam que seus livros são baseados no "jogo clássico" mas explica isso o mais vagamente possível. Daí no texto estão lá algumas tabelas (Mais comumente as do B/X) mas sem nenhum contexto claro para que elas servem.
| "Que menino saudável, olha quantos órgãos ele tem" |
Curiosamente esses exemplos inúteis são mais encontrados nos OSR modernos e todas as "maravilhas" que vieram depois. Já que é uma geração de "autores" que parecem adorar rules light, mas que precisam se apegar no jogo clássico de alguma forma para forjar algum tipo de relevância em seu material. Mas para quem conhece os jogos clássicos (recomendo a todos conhecerem), fica evidente que é só uma galera oportunista tentando tirar um troco ou pontos sociais na comunidade.
Essas tabelas, assim como a imagem de exemplo acima do cartoon 'Invader Zim', só servem para inflar o livro e consequentemente seu preço e o peso na mochila. Como no desenho animado, não importa se o indivíduo tenha roubado vários órgãos humanos se a função deles fica perdida e a saúde se refere à qualidade e bom uso e não à quantidade forçadamente inserida no texto. Mas aí você diz que ama tabelas e isso faz sua imaginação ferver. Sim, eu concordo 100%. Eu também gosto muito de tabelas com a mais rica variedade de conteúdos que incendeiam a imaginação e te estimulam a jogar o jogo. Mas não nos livros base. Para essas tabelas criativas, eu prefiro que estejam em suplementos próprios para isso, como o magnífico ToAD(Tome of Adventure Design). Mas no meu livro de jogo, eu quero material que seja útil imediatamente ou quando aparecer em jogo. Eu não preciso de tabela com cores de casa, formato de telhado, tom de bronzeado de kobold, nem qual a personalidade do mendigo da vila. Deixa isso para os módulos, se você os usar, ou para outros livros. O core eu quero como necessário, se possível, enxuto e direto ao ponto, além de ser leve e não me dar dor nas costas por ter que carregar para cima e para baixo.
Comentários
Postar um comentário