Quer ganhar um chokito? (Não proteja as tomadas de sua casa RPGística dos dedinhos nervosos)




Hoje é dia de chuva forte, então isso deixa a gente reflexivo quanto às lamúrias da vida. Sendo inconveniente que sou, compartilho esses momentos com todos vocês, pois que graça tem ficar nessa nostalgia sozinho?

O título desse post foi propositalmente nonsense por um motivo bem específico. Senta que lá vem história.

Quando eu era adolescente, eu ia na casa de dois amigos irmãos jogar PS1/PS2 ou ver anime (sim, tempos sombrios) e, vez ou outra, o pai deles aparecia para contar histórias desconfortáveis sobre a infância deles. Lembro de duas bem hilárias que, de tempos em tempos, quando os encontro, me vejo rindo.

A que interessa hoje foi a do Chokito. A outra, quando for relevante, talvez eu conte em outro post.

Então, estávamos lá vendo um jogo de futebol qualquer (como disse, tempos sombrios), e o pai deles começa a contar casos. Em um ponto, ele começa a contar sobre a infância dos garotos, sobre como eles eram enxeridos e adoravam explorar a casa (coisa absolutamente normal para criança pequena). Daí perguntei se os pais deles se preocupavam com a segurança deles fazendo isso, porque sempre tem vários casos de acidentes graves com crianças pequenas dentro de casa. Daí ele me solta essa:

"Sim, na época eu estava sem trabalho, daí ficava em casa de olho. Quando eles se aproximavam de algo perigoso, eu avisava: 'Não mexe aí', com bastante calma. Ele ficava olhando pra mim com aquele olho esbugalhado, como se eu estivesse negando a ele o doce mais gostoso do mundo. Insistia depois de um tempo, e eu tinha que tirar ele do chão e colocar no berço.

Um dia, ele foi em direção a uma tomada sem aquele plug de proteção que ficava na sala e ligava a TV de noite (de dia eu ligava em outra tomada por causa do reflexo da janela). Quando ele chegou perto, eu avisei: 'Não mexe aí'. Ele olhou pra mim daquele jeito. Fui lá, tirei ele e coloquei no colo enquanto assistia TV.

Passou algum tempo, ele pediu para ir para o chão e foi de novo. Eu falei em tom mais grave: 'Não mexe aí, senão te coloco no berço'. Fui lá, tirei ele de novo e coloquei no meu colo. Mas tinha perdido um gol do jogo com isso, fiquei revoltado.

Daí, depois de alguns minutos, ele começa a remexer no meu colo, pedindo para descer de novo. Eu deixei. A primeira coisa que o safado fez foi ir lá na tomada de novo. Ele se aproximou, olhou pra mim como se esperasse que eu fosse gritar, mas eu só fiquei olhando para ele. Não disse nada.

O que ele fez? Meteu o dedo na tomada. Levou um choque. Tremendo, com o rosto mais pálido que vela, olhou pra mim. Eu abaixei de longe e abri os braços. Ele engatinhou tremendo pra mim, sem resmungar, sem chorar, subiu no meu colo e ficou quieto o resto do jogo. Não precisei falar mais nada, nem ele. Nunca mais mexeu na tomada."

Moral da história: "Quer ganhar um Chokito? Enfia o dedito na tomadita."

Não faço ideia se essa história aconteceu desse jeito e definitivamente não recomendo deixar tomada destampada com criança em casa. Só lembro que foi engraçado demais ouvir ele contando isso. E hoje eu, vendo a chuva, lembrei disso para ilustrar meu ponto nesse texto. Sim, acredite ou não, há um ponto nesse texto.

A gente precisa quebrar a cara para aprender. Especialmente para ter as falhas como referências, para poder saborear os sucessos melhor. Assim é a vida. Não adianta a voz da experiência de nossos pais para nos impedir de enfiar o dedo babado nas tomadas abertas da vida. O máximo que eles fazem é nos alertar que, se fizermos isso, vai doer. No fim, não impede a dor, mas pelo menos nos faz estar +- preparados para sentir os nossos próprios tombos e aprender com eles.

Claro, você que está lendo já sabe disso. Esse blog não foi feito para crianças. E também não é um blog de autoajuda (nem para ajudar a mim mesmo, porque isso não é "meu querido diário"). Ou seja, calma que o ponto a que quero chegar já chega.

A gente sabe de certas coisas desde cedo, como que levar choque é algo muito desagradável. Mas às vezes precisamos lembrar que isso se aplica a muitas outras coisas na vida além do literal (eu sei, para muita gente, o além do literal é difícil de imaginar).

Em várias conversas sobre RPG de mesa (Viu? O ponto chegou), eu me vejo dando conselhos, compartilhando minhas experiências (como em vários posts desse blog que vos fala) e sendo xingado, escorraçado e mal falado nos 4 cantos desse minúsculo quarto de 5ftx5ft que é a OSR BR. Isso nunca me importou, porque eu sempre soube que havia quem tirasse proveito do que eu falava. Eu já sabia disso nas interações pessoais com a galera que realmente gosta do jogo e sabia que online tem muito mais gente que gosta, mesmo que não interaja tanto online, mas que lê, tem senso crítico e tira proveito de partes ou do todo do que falamos (plural, porque eu sei bem que não sou o único que faz isso). Então, quando acho que há algo relevante, eu falo. Quando acho que não tenho nada relevante, eu falo também, mas, por favor, releve isso.

Eu sei que muita gente que lê se revolta. Ou discorda prontamente, se for mais civilizado, não necessariamente não tira proveito do que é dito. Elas vão chiar, vão insistir nas escolhas infelizes que são ofertadas a todo o momento pela comunidade (custando algo caro como tempo ou ligeiramente mais caro como serviços pagos ofertados pelas "referências" do hobby), mas, em algum momento, (se quiserem tirar o máximo de D&D Oldschool, especialmente como é nosso caso), elas decidem tirar o "dedito da tomadita" (porque felizmente descobrem que o Chokito da tomada não tem chocolate nele). E mesmo se, com o tempo, não notarem isso, se estão satisfeitas na emoção da tomada, que pelo menos estejam nela cientes disso e felizes. Não julgo.

E este que vos fala, refletindo por algum tempo sobre isso, também decidiu tirar o dedito da tomadita. Não tem porque insistir com quem não quer sofrer. Devemos deixar para que eles mesmo notem isso e procurem por algo que use melhor o precioso tempo que ainda temos disponíveis em nossa finita existência. 

O importante é,  para quando o rosto empalidecido, os olhos esbugalhados e lacrimejantes e o tremor da descarga elétrica passando pelo corpo vier, e quando for notado que não é algo agradável de verdade, e vierem pedir por algo mais duradouro e satisfatório, estarmos lá de braços abertos para apresentar o bom e velho D&D.

E é por isso que estamos aqui (e em outros lugares). Se você está infeliz com seu OSR moderno, com seus sistemas de poucas páginas, supercoloridos, descolados e que não passam do nível 3 de fato, e seus manifestos intermináveis que exigem cursos de pós-graduação em filosofia para fingir que entendeu, o D&D Oldschool (O verdadeiro) está aí, testado e aprovado a décadas, com muito conteúdo e gente que joga o jogo, de braços abertos para você. Só venha. 

Então é isso, continuem postando, produzindo, convidando "novatos" para suas mesas e apresentando sempre que possível que existem portas abertas de uma experiência de jogo (real e jogado) melhor. É isso. A chuva parou. Bons jogos. 



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