NÃO apenas jogue. (E NÂO apenas leia as regras, claro. COMPREENDA-AS primeiro). Parte II: A Missão.



Em março desse ano (2026) eu publiquei esse texto só para dizer que o blog ainda existia. Mas fiquei com uma pulga atrás da orelha porque senti que precisava dizer algo a mais mas não sabia bem o que. Nele eu falei sobre a importância de jogar o jogo como sendo o objetivo final. E é mesmo. Tudo o que é  feito antes pelo mestre de jogo e os jogadores é para esse fim (ou pelo menos deveria ser). Mas eu acho que no fim das contas ficou faltando algo muito importante sobre o processo como um todo. O de interesse inicial pelo jogo, a leitura das regras e objetivo do jogo, o entendimento do conteúdo dentro do manual de jogo e a aplicação das regras contidas no manual durante a prática de jogo para fixação do conteúdo lido e interpretado. 

Então, vendo isso e sendo estimulado por reações de velhos (e novos) fãs encabulados aos meus textos em redes sociais online (adoram escrever reações sobre meus textos em vários lugares, menos aonde eu frequento. Curioso, não?) Então achei interessante voltar nesse tema sobre leitura, interpretação e prática de jogo para responder aos críticos enquanto tento orientar quem tem interesse em jogar de fato RPG de mesa. 

Ler o livro de RPG é essencial, claro. Isso eu falo toda santa hora. Parece uma afirmação tão óbvia que sequer deveria precisar ser repetida, mas a realidade da comunidade e seus frequentadores assíduos demonstra que ela continua essencialmente necessária. Só que, dizer apenas que ler é essencial e que jogar é o propósito final do hobby acaba escondendo um abismo de nuances que precisam ser consideradas. Entre abrir um livro e sentar-se à mesa para jogar, existe um processo intelectual que muitos ignoram, seja por preguiça, honesta incapacidade, simples má vontade ou deliberados, com um fundo de objetivos escusos.

Ler um jogo não significa apenas percorrer palavras impressas nas páginas. É necessário compreender o que está sendo lido, gafanhoto. É preciso saber interpretar o texto. É preciso entender as regras dentro de seu contexto e enxergar como cada uma delas se relaciona com as demais. É preciso compreender qual a proposta do jogo, do autor, ao escrever aquele texto, quais objetivos ele busca alcançar em mesa, na prática  e quais experiências pretende proporcionar aos jogadores. Um livro de RPG não é um catálogo de regras desconexas, (pelo menos não deveria ser isso) mas um conjunto de informações que se complementam mutuamente. Cada capítulo ajuda a explicar o anterior e prepara o terreno para o próximo. O leitor precisa ser capaz de juntar essas peças, uma a uma, até formar a imagem completa apresentada entre uma capa e outra. Mas é preciso ter interesse e paciência. Ler para entender é isso, um jogo de interesse e paciência.

Para isso, é essencial ler com a mente aberta, entender de onde o autor está vindo, seu raciocínio, sua realidade à época que escreveu sobre o assunto. Sem vícios prévios. Sem preconceitos. Sem a necessidade compulsiva de encontrar justificativas para confirmar opiniões já estabelecidas anteriormente pelo seu grupelho de amigos online nem de seu influencer predileto. É preciso entender o jogo pelo que ele efetivamente apresenta em seu texto e em suas regras, e não pelo que terceiros disseram sobre ele, pelo que se imagina que ele seja, pelo que se gostaria que ele fosse ou pior e infelizmente mais tendência hoje, pelo que seu suposto estilo de jogo tenta forçar ele a ser. Mas esse ultimo caso nem costuma ser culpa do leitor, mas dos carimbos de de iniciais de estilos da moda que alguns autores adoram colocar em suas capas de livros para fazer parte de um "movimento" (Leia-se, nicho tetas cheias para mamar). Antes de criticar, reformar ou reinterpretar, é necessário compreender o texto. 

Mas só isso não vai servir. Depois de ler, vem a hora de testar o que leu. O jogo tem que ir para a mesa. Mas de verdade, não só o suficiente para postar seus "actual play" ou seus "rants" no Discord. As ideias do manual de jogo precisam ser colocadas em prática. Seus limites precisam ser explorados. O grupo precisa experimentar suas mecânicas, ver elas funcionando (ou não) enfrentar seus desafios e observar como as regras interagem em situações reais (será que não funcionam mesmo ou foi só a fonte e layout que frustrou seus olhos pueris?).  Muitas características de um sistema de RPG  não podem ser plenamente compreendidas somente pela leitura. Elas dependem da experiência prática, da repetição, do erro e do acerto. Um jogo só revela sua verdadeira forma quando é jogado, quando os dados rolam. Mas isso leva tempo, e tempo é algo que as redes sociais demandam demais do usuário. A compreensão de um sistema é mais lenta do que a moda de um novo lançamento passa. E depois que a moda passa, para que ler e aprender a jogar?

Infelizmente, uma parcela considerável da geração mais recente de "jogadores" parece seguir exatamente o caminho oposto (digo mais recente mas não dizendo que as de antigamente também não eram assim, mas pelo fato de que isso é facilmente observável agora do que era a 20 anos atrás). Muitos sequer leem os livros. E entre os que leem, não são poucos os que já iniciam a leitura procurando defeitos previamente definidos por disputas ideológicas, rivalidades de internet ou guerras culturais externas ao hobby. Em vez de tentar compreender o texto, procuram munição para confirmar ressentimentos. Futicam as páginas em busca de algo que possa gerar indignação, controvérsia ou conflito. "Nossa, o peito dessa boneca é maior do que eu, como homem cis mas super aberto à sexualidade alheia, considero ofensivo", "Nossa, essa palavra aqui já foi proibida a 6 semanas e ainda usam ela a 40 anos atrás. O autor precisa urgentemente ser cancelado"  e etc. Já começam a leitura decididos sobre o que devem pensar.

Pior ainda, frequentemente nem jogam. Não testam as regras. Não colocam as ideias em prática. Não formam grupos para experimentar o jogo como ele foi concebido. Muitas vezes ficam presos à busca impossível por uma mesa composta por pessoas que compartilhem exatamente as mesmas opiniões, preferências e aversões em todos os aspectos imagináveis. O resultado é que o jogo deixa de ser uma atividade prática e passa a existir apenas como objeto de debate, consumo de conteúdo e disputa tribal. O que vejo muito é gente falando "esse jogo é terrível, mas como super OSR que sou, vou só pegar esses fragmentos que na minha cabeça funcionam e chutar o resto."

Esse fenômeno se torna ainda mais evidente nas discussões envolvendo a OSR. Há uma disputa constante em torno do significado do termo, commo todos sabemos, sobre o que sua história é (apesar de estar aí para todos lerem a respeito) e de sua identidade (usurpada N vezes por diversos grupos nos ultimos 20 anos para chamarem de sua). Existem aqueles que procuram utilizar a sigla apenas como ferramenta comercial, transformando um movimento em marca. Existem aqueles que desejam redefinir completamente seu significado enquanto mantêm o nome por conveniência mercadológica. Existem aqueles que usam a discussão apenas para alimentar conflitos culturais enfadonhos. Tem aqueles que querem apagar deliberadamente o estilo clássico de jogo para substituí-lo por outra coisa completamente distinta enquanto continuam reivindicando a mesma bandeira.  Tem aqueles que odeiam o estilo não por suas características, mas simplesmente por antipatia ao público associado a ele. Tem também os que mentem, distorcem e reescrevem fatos para obter benefícios pessoais, influência ou prestígio. E há ainda aqueles cujo hobby principal parece ser discutir RPG na internet, sem efetivamente jogar RPG.

Tudo isso gera um ambiente em que a compreensão dos jogos se torna cada vez mais difícil e é colocada em segundo plano. O debate passa a girar em torno de caricaturas, rótulos e narrativas externas, enquanto o texto dos livros e a experiência prática da mesa ficam em segundo plano. O jogo real desaparece sob camadas de discurso. E isso cansa. 

Mas não podemos perder o foco. É por isso que entender um RPG exige um processo simples em teoria, mas exigente em sua prática. É preciso ler. É preciso compreender o que foi lido. É preciso interpretar o texto em seu contexto. É preciso testar as regras. É preciso jogar. Em outras palavras, é preciso ser funcionalmente alfabetizado. Saber ler é apenas o primeiro passo. O verdadeiro desafio está em compreender ideias, conectar as informações que o autor quer passar e confrontá-las com a realidade da experiência prática de jogo. Sem isso, não se alcança o objetivo principal que é jogar RPG de mesa. Seja lá qual sistema, seja lá qual estilo e proposta.  Entendem-se apenas as próprias expectativas, preconceitos tolos e preferências projetadas sobre o autor e seu sistema de jogo. E projeção é o que essa galerinha descolada e altamente politizada de rede social que não joga adora fazer. Já jogar? Não dá tempo. 

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